6 de Fevereiro de 2018|Artigo|0 comments

O mercado de trabalho brasileiro, segundo Folha de São Paulo de 30.12.2017, contava em set-out-nov de 2017 com 36% de trabalhadores com carteira assinada, 25% de trabalhadores sem carteira assinada e 12% por conta própria, tudo em relação à PEA. Segundo o Correio Braziliense, de 1.11.2017, 13,5 milhões de trabalhadores se encontravam desempregados no período. Isso dá em torno de 13% da taxa de desemprego.

Estou interessado em saber como se relaciona de um lado a taxa de desemprego do mercado de trabalho formal e legal capitalista, que se chama aqui de taxa de desemprego bruta. De outro, a taxa de desemprego líquida, isto é, formada pelos trabalhadores que negam a condição de desempregado e vão à luta em busca da sobrevivência, seja na condição de empregado sem carteira ou através de pequenos negócios (que sejam formais e legais) por conta própria.

Então a taxa de desemprego líquida nada mais é que a taxa de desemprego bruta menos a taxa de trabalhadores ocupados sem carteira, menos a taxa de ocupados por conta própria (autônomos e pequenos e microempreendedores) . Seja dl a taxa de desemprego líquida; seja db a taxa de desemprego bruta; seja s a taxa de trabalhadores que negam a ociosidade e vão à luta sem carteira assinada; seja letra a a taxa de autônomos ou que negam a ociosidade por conta própria.

Para estudar a relação do desemprego do mercado formal e legal com as atividades do mercado alternativo, isto é, formada por aqueles sem qualquer proteção do Estado, sem carteira e os autônomos e os por conta própria, precisa-se incluir mais duas variáveis. O grau de utilização da capacidade instalada na economia: . Quanto maior U, estima que seja menor a taxa de desemprego bruta. Quanto menor U, estima que maior seja a taxa de desemprego bruta. E isso deve concorrer para diminuir (ou aumentar) o fluxo de entrantes no mercado de trabalho alternativo. Outra variável é a folha de salário dos trabalhadores empregados no mercado formal capitalista  

Seja qual for motivo, crise econômica passageira, progresso técnico oneroso, conforme a definição do economista Luiz Carlos Bresser-Pereira, se a folha de pagamento aos trabalhadores do sistema econômico desce, a renda do trabalho  (que inclui a renda do mercado formal W mais a renda do mercado alternativo) deve cair. A função a seguir  demonstra a trajetória da renda do trabalho incluindo o componente tecnológico ( ), onde k é o componente que avalia a apreciação ou a depreciação da folha de salário W por conta da inserção de tecnologia, no tempo. Seja t, o tempo.

A componente kt pode ser maior, igual ou menor que 1. Se esta for maior que 1 então a folha salarial W está crescendo no tempo em relação ao PIB. Se for igual a 1 é sinal que a componente tecnológica é neutra em relação à renda do mercado de trabalho formal, legal e capitalista. Se o componente tecnológico kt for menor que 1 então o processo de inserção de tecnologia economia estará derrubando a renda do trabalho formal W que, por sua vez, afeta negativamente a renda do trabalho (RT).

Na tabela abaixo demonstraremos a evolução da renda do trabalho sem inclusão da componente tecnologia (kt). Então supõe-se que esta componente da função seja constante. Supõe que seja constante também a taxa de utilização da capacidade instalada da economia: U.

 

             

 

Simulação da trajetoria da renda do trabalho (RT)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Folha de

Tx.Dsempr

Sem

Por conta

Tx de Dsem

Capacidade

Renda do

Pagamento

Bruta

Carteira

Propria

Liquida

Utilizada

Trabalho

W

Db

s

a

dl

U

RT

856

0,13

0,08

0,05

0

0,77

856

856

0,13

0,08

0,05

0

0,77

856

856

0,13

0,08

0,05

0

0,77

856

856

0,13

0,08

0,05

0

0,77

856

856

0,13

0,02

0,1

0,01

0,77

853,7656388

856

0,13

0,02

0,1

0,01

0,77

853,7656388

856

0,13

0,02

0,1

0,01

0,77

853,7656388

856

0,13

0,02

0,1

0,01

0,77

853,7656388

856

0,13

0,23

0,12

-0,22

0,77

906,6628166

856

0,13

0,23

0,13

-0,23

0,77

909,0356132

856

0,13

0,23

0,14

-0,24

0,77

911,4146196

856

0,13

0,23

0,15

-0,25

0,77

913,799852

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Observe que existem doze (12) períodos na tabela. Nos quatro primeiros períodos a renda do trabalho RT é constante e igual à Folha de Pagamento do Sistema, W. Isso quer dizer que a taxa de trabalho no mercado de trabalho alternativo é igual a taxa de desemprego bruta, por um determinado período.

No segundo momento, com taxa de desemprego líquida (dl) maior que zero, os quatro períodos são constantes, mas a Renda do Trabalho (RT) é menor que a folha de salário do sistema W. Isto quer dizer que os desempregados estão formando um grupo nem-nem, nem trabalham no sistema formal capitalista e nem procuram negar a ociosidade através do emprego sem carteira ou por uma atividade autônoma e formal qualquer.

No terceiro, os quatro últimos períodos, a taxa de desemprego líquida é negativa, isso quer dizer que os desempregados estão negando a condição de desempregado e estão indo à luta. A questão é de forma legal e formal ou na forma sem carteira? Sem proteção nenhuma do estado: sem previdência. De qualquer forma, o crescimento da renda do trabalho se dá de forma integrada e dependente da folha de trabalho formal capitalista, da taxa de desemprego bruta.

Se a folha cair por qualquer efeito, seja politico, tecnológico ou pura crise econômica passageira, a renda do trabalho tende a cair. Por último, vale a pergunta: Qual tem sido a trajetória da renda do trabalho brasileira nos últimos vinte anos?

Carlos Magno, Economista e Escritor.